Dança Movimento Terapia – O que é

European Association Dance Movement Therapy, http://www.eadmt.com

“Dance Movement Therapy (DMT), also known as Dance Movement Psychotherapy (DMP) or Movement Psychotherapy in the UK, offers individuals of all ages and abilities a space to explore what drives them, assisting people to develop self-awareness and sensitivity to others and also to find a pathway to feeling more comfortable in their own skin.

(…)

DMT is defined by the European Association Dance Movement Therapy (EADMT) as
‘the therapeutic use of movement to further the emotional, cognitive, physical, spiritual and social integration of the individual. Dance as body movement, creative expression and communication, is the core component of Dance Movement Therapy. Based on the fact that the mind, the body, the emotional state and relationships are interrelated, body movement simultaneously provides the means of assessment and the mode of intervention for dance movement therapy.’ EADMT Ethical Code 2010

Psicoterapia através do Movimento e da Dança

Por Sónia Malaquias, DMT

A Psicoterapia através da Dança e do Movimento (DMT – Dance Movement Therapy) é uma forma de psicoterapia que utiliza o corpo e a sua linguagem (o movimento e a dança) para ajudar a resolver conflitos emocionais e psicológicos. Tem como pressuposto que mente e corpo estão conectados, e que tudo o que se passa na mente tem reflexo no corpo e vice-versa. É através desta procura de integração mente-corpo e dos aspectos expressivos do movimento, sempre vivenciados no seio de uma relação terapêutica segura, que a mudança pode ocorrer.

Contextualização da disciplina

A DMT pertence às chamadas terapias artístico-criativas, como a musicoterapia, a drama-terapia e a arte-terapia. Nesta disciplina, o movimento é visto como simbólico, com um significado específico para cada pessoa que o realiza, e capaz de aceder a conteúdos inconscientes, que habitam o corpo. Não raras vezes estes apenas são acessíveis através da linguagem do corpo, tornando-se conscientes através do movimento e só depois passíveis de verbalização e de integração ao nível do pensamento.

De implantação muito recente em Portugal e Espanha, a DMT é amplamente reconhecida como uma forma de psicoterapia em países como a Inglaterra e os Estados Unidos da América, onde foi criada há mais de meio século e tem vindo a ser desenvolvida como método psicoterapêutico. Este tipo de psicoterapia na relação entre a mente e o corpo, e as emoções. É uma que dá primazia à relação terapêutica e à análise do que aí sucede, mas também aos conteúdos mais ou menos inconscientes que vão surgindo. Em termos teórico-práticos fundamenta-se na psicologia do desenvolvimento humano, nas investigações sobre a comunicação não verbal, nas recentes descobertas das neurociências, nos processos criativos e na dança, e nos diferentes sistemas de análise e observação do movimento.

A DMT pode ser utilizada com várias populações (crianças e adultos), incluindo aquelas que menos se movem, como é frequentemente o caso dos idosos, de alguns distúrbios psiquiátricos e de pessoas com dificuldades físicas. Pode ser utilizada em contextos psiquiátricos ou como ferramenta de autodesenvolvimento, em clínicas públicas ou privadas.

Princípios da DMT

O trabalho psicoterapêutico em DMT baseia-se nos seguintes princípios:

1. Na conexão entre mente e corpo, uma vez que as alterações ao nível do movimento têm reflexos a nível emocional e cognitivo, afectando o funcionamento global do indivíduo.

2. Como psicoterapia que é, a DMT acontece no seio de uma relação terapêutica baseada na criação de um espaço seguro e de confiança, onde o terapeuta se relaciona com o paciente 2 através da linguagem verbal e não-verbal, incluindo muitas vezes uma interação ativa (em movimento) entre ambos.

3. O movimento pode ser evidência de conteúdos inconscientes da mente – sensações, sentimentos, emoções, imagens e memórias, que não estão presentes no campo da consciência.

4. O movimento pode levar a insights sobre o próprio, permitindo o aumento da autoconsciência e uma abertura à mudança. Muitas vezes, esses insights encontram a sua consistência na verbalização do que aconteceu durante o movimento e de por que aconteceu. Existem, assim, dois canais que podem ser utilizados na DMT para o insight e a sua resolução: o verbal e o movimento.

5. O ato de criação de um movimento através da improvisação é inerentemente terapêutico e a criatividade e a arte são meios privilegiados de expressão e comunicação humanas. Assim, o simbólico é chamado à terapia e o corpo é visto como metáfora.

6. A capacidade de expressão emocional e simbólica através do movimento/corpo e um amplo repertório de movimentos são considerados sinais de desenvolvimento e saúde.

Como se processa?

Tentar explicar um processo psicoterapêutico é sempre uma tarefa ingrata e condenada ao fracasso… Tal acontece porque estes processos são sempre co-criados pela dupla paciente psicoterapeuta, num espaço e tempo determinados, e nunca há processos idênticos.

Tal como o psicoterapeuta verbal não diz sobre o que falar, também o psicoterapeuta através do movimento não pode dizer como o paciente se moverá. Pode dar pistas, sugestões, alternativas, mas, em última instância, a decisão é sempre do paciente. Este pode inclusive decidir não moverse e confrontar-se com a sua própria imobilidade. Não se pressupõe nunca que o paciente tenha qualquer conhecimento ou experiência na área da dança/movimento; não se trata de uma atividade física, mas sim do aumento da consciência corporal sabendo que isso levará á promoção da autoconsciência global.

Por outro lado, o recorte terapêutico da DMT pode ser individual ou grupal, o que faz variar muito o processo e o papel que o psicoterapeuta assume em sessão. Também o tipo de problemática que surge levará o terapeuta ter um papel mais ativo (a mover-se com o paciente) ou mais observador.

A DMT utiliza tanto a comunicação verbal como a não verbal (corporal) e baseia-se na conexão corpo-mente. As sessões iniciam geralmente como uma parte verbal, passam para um momento em movimento, e terminam também com a palavra, por forma a possibilitar a integração das vivência durante o movimento (verbal e emocional).

As sessões são geralmente divididas em quatro partes:

1. O check-in, em que se utiliza a comunicação verbal para partilhar a forma como se sente o paciente / grupo, qual o ponto onde se encontra nesse momento, no foro emocional, cognitivo e corporal/físico. Para o psicoterapeuta, este é um momento privilegiado para receber informações que lhe permitirão reorientar a sessão planeada tendo em conta o estado atual do paciente / grupo.

2. O aquecimento, cujo objetivo principal é preparar o corpo para a expressão emocional, aumentando a consciência corporal e permitindo que o paciente “chegue” ao espaço terapêutico. Se se trata de um grupo, esta fase é também importante para que este comece a criar a sua própria dinâmica.

3. O processo propriamente dito chega no final do aquecimento, e é onde se vai realizar a dinâmica da sessão. Dependendo do enquadramento terapêutico (indivíduo ou grupo, e tipo de população), o psicoterapeuta é mais ou menos ativo, tanto em mover-se como em dar orientações e indicações para promover a dinâmica do movimento.

4. O fecho, a última fase da sessão, é geralmente feito em linguagem verbal, mas também podem ser utilizadas outras formas de expressão (como o desenho, por exemplo). Esta fase é bem marcado na sessão para que o paciente / grupo possa ter a oportunidade de dar significado ao que viveu em movimento e se possa preparar para a saída do espaço terapêutico.

O conteúdo visível das sessões é o padrão de movimento do paciente (e do psicoterapeuta) tal como existem no momento atual do encontro terapêutico. É com este repertório de movimento e com o que surge na sessão que o terapeuta interage e se relaciona, na assunção básica de que todo o movimento reflete simultaneamente as dinâmicas intrapsíquicas do paciente e a sua forma de relacionamento pessoal e social.

O processo, as sessões e o movimento proposto podem ser mais ou menos estruturados: há populações em que é aconselhável uma maior estruturação do processo, com um planeamento das sessões e por vezes mesmo dos movimentos propostos. Num processo de desenvolvimento pessoal, o planeamento é mais livre e geralmente é dado espaço para que o movimento espontâneo aconteça. Tentando concretizar, o terapeuta pode por exemplo, pedir ao paciente para experimentar ocupar todo o espaço da sala, ou tentar um movimento mais lento, ou mais rápido, ou mais pesado, ou mais leve… Ou pode não sugerir nada e propor ao paciente que se mova livremente. Pode usar-se música para ancorar o movimento, ou não.

As sessões de DMT são normalmente semanais, e a sua duração depende do recorte terapêutico (individual ou em grupo) e das características da população ou paciente; é ainda utilizado um espaço mais ou menos amplo, dependendo da mobilidade e do número de pessoas. Podem ainda ser utilizados acessórios diversos (lenços, bolas, balões, brinquedos, etc.), que podem auxiliar a expressão através do movimento, bem como a música e outras formas de expressão criativa (provenientes das artes plásticas ou do teatro), por forma a complementar o processo.

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